Quem não se lembra das aulas de biologia que tivemos ainda no ensino fundamental sobre a cadeia alimentar? O grande predador, lá no topo, todo poderoso? Pois é. Eis a nossa concepção de força, de superioridade, de poder.
Observe apenas o fato:
Temos a plantinha que se alimenta da luz solar. Logo em seguida, o peixinho que come a plantinha, o peixe que come o peixinho, o peixão que come o peixe e o pescador, capaz de pescar qualquer um deles. Pura e simplesmente, um fato.
E como aprendemos a interpretá-lo? Vejamos:
Lá está a plantinha, na camada mais baixa da cadeia alimentar, por servir de alimento primeiro, é considerada frágil, impotente diante dos "mais fortes". Logo após, vemos o peixinho como o segundo fragilizado e assim prosseguimos até chegar ao topo. Tal como num ranking, lá está o mais poderoso, o mais privilegiado, o mais forte! O grande predador capaz de dominar - devorar - os demais componentes da natureza que estão a sua disposição.
Bem... Vocês não acham um tanto conveniente essa interpretação das coisas "como elas são"?
Por que não exercitamos uma outra espécie de interpretação sobre quem seria o "mais forte" em vez daquela que privilegia o predador? Tal como essa:
Imaginemos uma interpretação em que o grau de força maior, de grandiosidade - o topo do ranking - privilegiasse o grau de independência dos seres. Quanto maior a dependência em outro ser para garantir a sobrevivência, mais frágil seria o componente dentro do quadro da cadeia alimentar.
E vejam só: nesse caso quem vai para o topo é a plantinha! Pois ela precisa praticamente só da luz solar para se alimentar. Bem como o peixinho que precisa apenas dos componentes da plantinha para saciar-se. E através dessa concepção a humanidade desce do trono e vai compor a margem da cadeia. Veja só que coisa! Justamente nós que nos considerávamos assim tão poderosos.
Ah, mas é claro que existem os contestadores da "nova ordem" de percepção da vida! Nós, humanos, somos complexos, os únicos que possuem uma consciência amplamente desenvolvida, uma inteligência atípica e superior aos demais, o que nos proporciona grande poder de autonomia e de domínio sobre eles!
Como dizer isso sem ferir ainda mais o nosso ego? Pois é. Essa é uma outra interpretação passível de ser refutada. Nunca deixamos de depender dos componentes da natureza para sobreviver. E pior: devido a essa "tamanha inteligência" humana, acabamos por nos tornar duplamente dependentes do meio. Além de continuarmos a sê-lo perante a biodiversidade do planeta, tornamo-nos também dependentes da gigantesca e complexa cadeia social das prestações de serviços. Pois a maioria das pessoas pescam os seus peixes num freezer de super mercado e colhem os seus frutos e verduras nas prateleiras de uma feira livre de domingo.
Portanto, caríssimos, aceitem o meu convite de descer do topo e procurem olhar ao seu redor através de outros patamares. Exercitemos a criticidade acerca das interpretações do mundo. Afinal, verdades são meras concepções.



